JULIANA KASE

ANDAMENTOS PARA LUGAR SEM SOMBRAS

03 MAIO 16 JUNHO

PRESS RELEASE

JULIANA KASE

Abertura

Quarta-feira 02 de maio de 2012 19h

Período expositivo

03 de maio a 16 de junho de 2012

Horário de visitação

Honra ao mérito
 
Vitória, coroação e progresso. Percebe-se na sociedade que existe a imposição de uma linha que leva o campeão ao ponto mais alto, em superioridade aos demais. Aos “não iluminados” ficam delegados apenas a margem e um futuro incerto. Está próximo! É logo ali! Siga em frente! Caminhe somente mais um pouco! Tais incentivos são ditos a nós como certeza de vitória, mas nem sempre esse horizonte é alcançado, revertendo à sociedade prejuízo e anomia quando os atores percebem impossibilidade e exclusão.
 
Os últimos trabalhos de Kase tratam de questões distantes do caminho que a arte faz hoje, o que lhe interessa são as histórias delegadas ao segundo plano: o campeão em seu pódio vazio e incolor, ou sua coleção de medalhas impossíveis de ser diferenciadas, já que possuem a mesma configuração visual – bronze, prata e ouro –, inexiste a distinção pelo brilho do objeto, tudo é preto e branco. Seus louros se dão pela promessa do contraste e seu pêndulo hipnotiza o próprio competidor, tirando dele qualquer vontade de passar em primeiro lugar pela reta final. Um dado importante na produção da artista é que o desenho − em sua constituição inicial [grafite sobre papel] ou em outros suportes e materiais [fotograma ou instalação] − é sempre utilizado como campo de exploração e desenvolvimento, e entra na pesquisa como elemento final e não apenas como mediador e esboço entre ideia inicial e sua praxe. É percebida a ausência de uma paleta de cor, e isso nivela toda a informação em um mesmo patamar de importância e sentido. O desenho é tomado mais como objeto do que apreendido pelo plano. Nessa exposição são apresentadas quatro proposições distintas: uma instalação e outros traba- lhos em menor escala. Trabalhos In Situ são recorrentes na trajetória da artista, tomando aqui um sentido mais amplo: o espaço e seu contexto continuam sendo o escopo, mas o desloca- mento de determinada obra para outro local não altera o seu sentido inicial. Isso acontece na série de desenhos Penduradinhos, trabalho montado na área da galeria destinada ao acervo − é retratado em desenho o movimento de uma toalha pendurada, remete-se ao lugar instalado e também à constatação de sua condição: ser estático e pronto para ser levado e pendurado.

Temos então uma abertura do termo In Situ, pois aqui ele aparece de forma menos engessada e mantém uma condição metafórica com o termo de origem. São trabalhos em que o lugar não é o que modifica a leitura ou o único parâmetro que rege a condição de sentido, servindo apenas como espaço transitório. O tempo é a estrutura específica e contextual.

A série de fotogramas Jogo é um trabalho em 18 partes dispostas em linha, em que se mostram as ações de um jogo de pega-varetas. Todas as varetas possuem a mesma cor e, consequentemente, o mesmo valor. No jogo real a preta sempre mantém vantagem, tem maior pontuação e é a única que pode ser usada como auxiliar na coleta das demais; nesse caso, todas possuem a mesma função e com isso se anula a distinção entre elas, não existe o passo à frente e a própria regra imposta é subvertida. O objetivo talvez não seja alcançado, no entanto, pois as linhas desaparecem e ficamos com a dúvida: vitória ou derrota pelo apagamento?
 
Em Bandeira, a construção do trabalho se configura em 24 quadros, logo se associa a cadência utilizada no cinema para a exibição de um segundo de cena. O símbolo identitário de nação é anulado, constrói-se uma flâmula para uma nação que não existe como território instituído. A sombra aparece como duplo e os espectros formam imagens de segunda ordem, passíveis de identificação, mas nunca com a própria apreensão do real.
 
Tem-se portanto uma série de proposições em que a construção se dá pela vontade de engano: sombra e apagamento. Prestes à erosão: de território e de conceitos enraizados. Constrói-se uma estrutura de contenção, mas sua função e condição são nulas. O território é movediço e pronto a desaparecer. O risco existe, mas não se configura um problema, pelo contrário, a dissonância é algo de que se orgulhar.
 
“Você tem de ter força para derrotar o inimigo, perder não é o correto!” Ao final do texto, ouço isso antes de entrar no ônibus − alguém gritava alto ao telefone.
 
Renan Araújo