MONTEZ MAGNO

GALÁXIA – Curadoria Clarissa Diniz

04 SETEMBRO 13 OUTUBRO

PRESS RELEASE

MONTEZ MAGNO

Abertura

Sábado 01 de setembro de 2012 12h

Período expositivo

04 de setembro a 13 de outubro de 2012

Horário de visitação

Galáxias de invenção

Habitante arruaceiro do “grande mundo da invenção”1, Montez Magno tem constantemente recriado cosmologias e cosmogonias para o universo. Sua liberdade está em borrar as fronteiras entre o logos (saber, ciência) e o gon, território da imaginação. Nesse cosmos inventado (porque inventivo), percorre irrestritamente campos que talvez fossem vistos como distantes ou antagônicos. Assim, sua obra explora conceitos ou métodos aparentemente científicos – combinatória, fragmentação, projeto, métrica, síntese – para fins majoritariamente anárquicos. Sem desejar delimitar conjuntos de verdades, senão gozar do prazer em sugeri-las para na sequência contradizê-las, o artista constituirá séries infindas de galáxias para o mundo e para sua obra, numa aposta no caráter camaleônico – transformador, instável – da vida e da arte: “há uma tendência dos artistas a serem monolíticos. Eu sempre fui camaleônico”2.

Assim é que, no princípio dos anos 1960, experimenta um modo de invenção que vez por outra retomará com força em seu trabalho: a entrópica ação de fragmentar, de dispersar, de desconstruir –  “eu fazia uma abstração mais formal usando formas mais compactas, aí (…) me veio a ideia de fragmentar a forma – é quando começa esse trabalho de fragmentação. Fundamentalmente, é como se eu quisesse ver o que ocorria dentro da matéria, uma espécie de atomização. (...)”. Assim, na sequência da gestualidade descentrada das monotipias dos anos 1950 ou da série Negra (1961), surgem séries como Caatinga (1963) e Fragmentações (1964), que congelam o movimento expansivo num instante que se situa para além da habitual linearidade das narrativas cosmológicas/cosmogônicas, mantendo, contudo, seu tônus de cosmos em gestação: “quando o signo surge em sua pureza potencial, fora de qualquer contexto verbal ou linguístico, para ser significante e único no plano do símbolo estético, é sempre fruto de uma violência inicial necessária, de um impulso energético que lhe dá nascimento”3

Esse impulso fragmentário – gesto inventivo que na obra de Montez Magno reverbera em investigações espaciais e singulares lógicas de organização – aparecerá pautado por intenções e formas persas, constituindo uma galáxia de possibilidades: de uma acepção fenomenológica  evidente (como nas séries acima mencionadas, em que o gesto e o caráter expressional são protagonistas) a implicações conceituais e de linguagem mais estridentes (como nas partituras Bacchianas (1966), Notassons (1970-1992) ou Cromossons (1994)), tangenciando preocupações urbanísticas – série Cidades imaginárias (1972) e derivações – ou, ainda, relativas ao status quo da cultura, como Museu portátil (2009), cuja inconstância de formas e arranjos ironiza a museificação dos sempre cambiantes sentidos e valores.

Nesse sentido, esta exposição apresenta um recorte dos trabalhos de Montez Magno que desdobraram tal impulso entrópico, amplamente calcado numa dimensão sensível e experimental da espacialidade, o que se evidencia no trabalho que dá título à mostra, Galáxia – trabalho de expansão espacial (2010), cuja lógica modular de caixas de ovos é flexibilizada e persificada pela aleatoriedade e infinitude das possibilidades de combinação das bolas coloridas que as ocupam, ao passo que realçam seus vazios. A recente instalação tridimensionaliza, assim, uma liberdade de composição que, na produção de Magno, esteve marcada pelas ideias de organização, combinatória e possibilidade – como se percebe na série de trabalhos envolvendo dados, como Maquete (1968) e Um lance de dados não abolirá jamais o acaso (1973) ou, ainda, nas obras da série Mondrian (1984), que enlouquecem o cartesianismo da grade neoplasticista por meio de uma antieconomia da multiplicidade e da aleatoriedade.

No contexto dessas investigações espaciais – marcadas pelo rearranjo de elementos simples que se combinam e, a partir de suas posições cambiantes, vão configurando ritmos e espacialidades diversas –, surge uma musicalidade silenciosa que, nos álbuns Notassons (1970-1992) e Cromossons (1994), é tratada também como linguagem. Desde 1970, com a série Sonata para olho e ouvido, Montez encara a questão da notação musical (do código) e, como inventor inconformado, reconfigura as normatizações sígnicas habituais, desenhando livremente uma musicalidade que, posteriormente, chamou de música aleatória. Com Cromossons, por sua vez, tal aleatoriedade se radicaliza pela apropriação de uma estrutura gráfica alheia ao artista (folhas de controle de estoque), na qual Magno faz apenas discretas intervenções, explorando lógicas espaciais ali previamente existentes. Assim, ainda que já presente em seus trabalhos iniciais – como nas colagens de 1962, cujos elementos suavemente geométricos parecem ocupar a superfície com solidão ou melancolia –, será nos trabalhos intimamente vinculados à musicalidade que o vazio, as pausas e os silêncios se tornam valores construtivos primordiais na obra do artista. “Fascinado por obras inacabadas”, Montez Magno fará desse vazio um impulso inventivo constante: “eu não tenho cartilha, eu abro caminhos”4.

Nessa dimensão galáctica de percursos que se multiplicam em constante estado de expansão, o inventor Magno tem trabalhado com materiais simples, cotidianos, disponíveis a reconfigurações persistentes que pouco se atêm às fetichistas lógicas do mercado de arte, como notara Lygia Pape em 1968: “é antiarte. Proposta a partir do quase-nada. Daquilo que é usado e, agora, é novo-ato. [...] O material provoca a criação, sugere a invenção, espontâneo, liberto de qualquer conotação particular. Reassume nova origem – não a do uso diário – mas a do sonho colorido”5. Dessa maneira, mais interessado na invenção – na força da criação não apenas como ato, mas como exercício constante –, Montez Magno rearranja materiais tão diversos e ordinários como sabão em pedra, caneta hidrocor ou parafusos, constituindo uma obra centrífuga, variável e aberta ao outro que, não estando preocupada em “estruturar o mundo” numa espacialidade universal (seja cosmológica, seja cosmogônica), inclina-se, por sua vez, a criar pequenos arranjos – efêmeros e pontuais – que, respondendo a contextos sensíveis e políticos os mais diversos, têm todavia a potência de fazer-nos, todos, inventores. 

Clarissa Diniz

 

1 OITICICA, Hélio. Depoimento especial para o filme HO (1979). 

2 Montez Magno em entrevista à autora, 2009.

3 PEDROSA, Mario. Da caligrafia ao plástico. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 7 de fevereiro de 1958.

4 Montez Magno em entrevista à autora, 2009.