John von Bergen

24 OUTUBRO 01 DEZEMBRO

PRESS RELEASE

John von Bergen

Abertura

Terça-feira 23 de outubro de 2012 19h

Período expositivo

24 de outubro a 01 de dezembro de 2012

Horário de visitação

Bordas e Trincas
Quando em novembro de 2011 abri a porta da cozinha do estúdio-residência onde estava hospedado em Miami, e me deparei com a figura de um sujeito alto e careca fritando bacon e fumegando o ambiente, não imaginei que estava diante de um parente na arte. Acredito que o que levou John von Bergen a solicitar meus humildes serviçoos de escriba tenha sido também empatia na identificação de situações semelhantes nos nossos trabalhos. Embora eu venha de uma formação de pintor e John seja escultor, foi no contato da obra com o seu entorno que nosso trabalho encontrou o diálogo e foi ali que seu trabalho despertou a minha curiosidade.
Algumas obras de John parecem recusar os instrumentos de classificação comumente usados para denominar categorias na produção contemporânea. Elas não se completam totalmente como objetos livres dentro de determinado espaço, tampouco se dispõem a ocupar este mesmo espaço de forma que pudessem ser chamadas de instalação. O que temos são coisas que parecem se deitar e se contorcer sobre a parede como um cachorro que se coça rolando de costas sobre a grama. E quando acreditamos encontrar algum sentido em uma obra, uma segunda proposta tira novamente o chão de sob os nossos pés.
Em uma obra como Chronic n4 o objeto se apresenta de forma ambígua, como um quase quadro que se parece com uma grossa chapa de metal oxidado, sendo os índices da ação corrosiva sobre a superfície, na verdade, uma pintura abstrata feita de manchas. A oxidação anuncia a decomposição da matéria que, na forma de objeto, dissolve-se no branco da parede. O ponto central do que nos apresenta John parece consistir em mostrar que não há ali possibilidade de compreensão lógica destes fatos. Para além da óbvia pergunta de como seria possível uma tal situação ser real, refiro-me aqui ao por que o artista nos expõe esta imagem? Não se trata de algo que pudesse estar saindo do interior da parede, nem de um objeto que deveria ter uma relação extensiva com a arquitetura (embora tenha), tampouco parece se tratar de uma tentativa de expandir a pintura no espaço. Quando uma definição em negativo parece começar a se delinear por tudo aquilo que a obra não é, nos deparamos com uma obra semelhante, mas que se apresenta contida em um quadrado, um quadro cujo conteúdo é um segmento de parede descascada. E ao tentarmos estabelecer uma relação dialética entre o primeiro e o segundo objeto, uma terceira obra, Untitled (Crack), chega para embaralhar o jogo – estamos então diante de três obras semelhantes que se divergem totalmente na condição de suas existências: um objeto em corrosão que se funde à parede, um objeto autônomo que se apresenta como um pedaço de parede corroída, e, finalmente, uma obra que mimetiza a própria parede.
Se por um lado é fácil identificar na música, no heavy metal, nos filmes de ficção científica ou nas obras de Richard Serra (ainda que para falseá-las) os motivos por trás das opções de John, por outro, a variedade dos seus meios dificulta a circunscrição de um campo semântico capaz de agrupá-los. A sua obra refuta os instrumentos de compreensão e classificação de que dispomos para analisar a arte e as coisas do mundo. Diante delas fica a pergunta: por quê? E esta recusa é o que a torna inesgotável.

As variantes na escala também contribuem para a peculiaridade deste escultor. Há em sua obra momentos de um peso brutal, em que um poste em tamanho natural, fundido na parede, transforma o concreto em um caldo cremoso; em contrapartida, há outros momentos em que um pequeno e delicado papel amassado, instalado subcutaneamente no reboco da parede, tem o poder de ativar todo o espaço ao seu redor, nomeando esta parede toda uma grande folha de papel.
São situações que extraem potência da imersão do espectador em uma realidade mágica, usando para isso materiais banais do cotidiano capazes de operar como fios condutores e levar a situações surreais. Como não lembrar de Magritte em Hang Nail? Uma obra que une a simplicidade da arte conceitual dos anos 1960 às imagens enigmáticas do pintor belga. Um prego na parede leva um barbante amarrado que se transforma em outro prego, assim como os pés se transformam em sapatos no Red Model de Magritte.
E se na casualidade abstrata das manchas que formam as superfícies oxidadas das chapas de "metal pesado" podemos ver paisagens turbulentas de tempestades elétricas, é nos desenhos de John que as formas parecem se libertar da objetividade do mundo para seguir um caminho mais livre. Há ali uma maestria da tradicional luz e sombra que, assim como fazem os hiper-realistas americanos, recria quase fotograficamente a realidade (no caso de John, a surrealidade) – representações de formas não objetivas, modeladas escultoricamente em grafite sobre papel. São desenhos que nos convidam a uma viagem, como se estivéssemos caminhando no leito de um rio após tomar ácido e nos pegássemos olhando por horas as formas sinuosas de um tronco de árvore. Em alguns momentos elas parecem ossos, em outros, madeira ou tecido. São formas que, embora bem definidas, escorregam interpretações. Se pudéssemos extrair seu material genético talvez chegássemos a descobrir sua paternidade na caveira Eddie do Iron Maiden, ou, em uma genealogia mais aprofundada, Giuseppe Arcimboldo e Hieronymus Bosch.
A solidez da parede branca é um emblema do intransponível. As obras deste americano que escolheu morar em Berlim fundem elementos da cultura pop, do rock e da linguagem abstrata com formas soturnas da tradição da arte do Norte europeu para criar objetos enigmáticos, que desconstroem significados e certezas ao friccionar a familiaridade confortável das coisas que nos circundam contra as barreiras da linguagem que nos limita.
Henrique Oliveira