MAURICIO ADINOLFI

MÚSCULO INVOLUNTÁRIO

19 OUTUBRO 17 DEZEMBRO

MAURICIO ADINOLFI

Abertura

Sábado 10 de setembro de 2011 17h

Período expositivo

19 de outubro a 17 de dezembro de 2011

Horário de visitação

Terça a sábado 11h às 19h

Há algo de rústico e, ao mesmo tempo, preciso nas telas de Maurício Adinolfi. As áreas de cor são claramente delimitadas, ainda que a superfície e os contornos sejam ruidosos e o lugar da forma no espaço seja ambíguo. Com essas estratégias, o artista revela o que há de involuntário (desejo, memória, instinto, afeto) em uma ação altamente controlada como é a pintura, ou, pelo menos, a pintura que ele faz.
Em Músculo involuntário, Adinolfi constrói a imagem por camadas, cobrindo formas inteiras com novas porções de tinta, sem que as cores se mesclem na maior parte das áreas. Por outro lado, em diversos pontos, aquilo que deveria ter ficado para trás surge como um ato falho, como uma cor aparentemente deslocada sugerindo a estrutura da forma, ou o passado da própria imagem, um resquício do que ela deixou de ser. A superfície é quase sempre feita de áreas monocromáticas de espessura densa, na qual as formas são modeladas pelo deslocamento das massas de tinta, criando relevos mais ou menos sutis e zonas de acúmulo de matéria informe.
Maurício Adinolfi trabalha com grandes quantidades de tinta, como Iberê Camargo, embora tenha formulado uma maneira particular de ordenar camadas densas de cor. Em Iberê, a forma era fixada após uma longa sucessão de construções e apagamentos, como se o artista vasculhasse um terreno pantanoso até encontrar algo que merecesse persistir como figura, ainda que mal delimitada. As pinceladas de cor “suja” apontando para várias direções denunciavam a complexidade e a densidade da matéria manipulada com extrema inquietude. Esta é uma referência importante para Adinolfi, que em outros momentos também trabalhou com tons sombrios, formas pouco definidas e cores que se invadiam. Em, no entanto, o artista opera mais a partir da ideia de sedimentação do que de apagamento. 
Na série Incidência branca (2008), uma mesma substância constitui corpos e espaços. As figuras se tocam e parecem se apoiar umas às outras, enquanto a massa branca esconde partes do que se passa entre elas. Duas personagens quase invisíveis sugerem a noção de desaparecimento e, ainda assim, de solidez, pois parecem cristalizadas no tempo e no espaço. Os corpos, assim como as plantas, são sinuosos, mas a espessura da atmosfera que os circunda sedimenta seus gestos, dando a impressão de que não há espaços vazios. O movimento das superfícies evita que os ambientes se tornem engessados, explicitando uma busca de adequação entre a solidez das formas (e possivelmente da memória) e o desenrolar das ações no tempo. Ainda assim, o que salta aos olhos são as áreas vibrantes de uma única cor capazes de se expandir para além da tela.
Maurício Adinolfi muitas vezes parte de fotografias feitas por ele mesmo ou que são retiradas de revistas e livros. Em suas obras, a referência fotográfica não tem valor documental, sendo processada na superfície da tela juntamente com a história da arte e com outras vivências. Ele não age de improviso, mas tampouco se prende à ideia de representação.

O artista trabalha há anos com figuras de animais, sobretudo de símios. A presença dessas personagens e de plantas africanas em suas telas, além de remeter a um universo selvagem, paradoxalmente fornece a Adinolfi os limites que orientam suas investigações sobre a configuração por meio de campos de cor. Na série em que mostra pequenos chimpanzés pendurados, a figura aparece como pretexto para investigações tonais que remetem à obra de Alfredo Volpi, embora a espessura do óleo usado por Adinolfi não se confunda com a têmpera rala daquele pintor. Em Músculo involuntário, o tonalismo é quase sempre bem menos sutil, e as variações de uma mesma cor aparecem muitas vezes separadas por áreas brancas, formando espaços coesos e autônomos. 
A associação entre concisão e rudeza acontece também na série de desenhos realizados em superfícies de fórmica com furadeira, em 2009. Nesses trabalhos, os quadros são divididos em áreas de formas geométricas precisas e figuras de animais—macacos e lobos—feitas com o instrumento de perfuração. De todo modo, a aparente dicotomia entre civilização e natureza talvez seja enganosa, pois o desenho com furadeira só é possível por meio da combinação entre conhecimento e força bruta. Segundo o artista: “A ação no meu trabalho é onde acontece o que há de mais interessante. Como considero a ação uma forma de pensar completa e incontrolável, é nela que o exercício intelectual e muscular encontra a vida em potência e instante”. 1
Em Planta e prédio (2011), que integra a presente exposição, os contrastes são apaziguados pelo tratamento da superfície, que aqui é mais homogênea, e por um tonalismo sutil e sedutor. As folhagens e os retângulos se penetram deixando-se modificar uns pelos outros, mesmo nas áreas negras. Essas não comprometem a leveza do quadro, pois flutuam sem interferir no caimento das folhas. A transparência dos retângulos brancos os torna etéreos. As formas não parecem presas ao espaço, sobretudo porque a cor não é tão corpórea como em outras obras da exposição. Pinceladas laranja aparecem timidamente nos limites de uma ou outra forma, denunciando que aquele já foi um território de projetos abandonados. As relações tonais criam luminosidade e evocam placidez.
O mesmo pode ser dito de Chico (Chimpanzé e forma) (2011). Trata-se de uma das pinturas da exposição em que as formas são apresentadas com maior clareza e, ao mesmo tempo, onde a sobreposição por camadas é mais evidente e profunda. Aqui, natureza e cultura são postas lado a lado em uma situação de equilíbrio. Apesar da excelência técnica de sua fatura, a figura do chimpanzé não é desculpa para investigações exclusivamente pictóricas. A partir de uma experiência real—Adinolfi trabalha como voluntário no Zoológico de São Paulo, no setor de grandes primatas—, o artista cria um espaço indeterminado e onírico. A forma à esquerda dá a ideia de um espelho voltado para o espectador, criando a expectativa de um jogo de correspondências entre o que há de pretensamente humano no animal e vice-versa.
 
Heloisa Espada
Setembro de 2011