ROSEMBERG SANDOVAL

SALVAJE

20 AGOSTO 04 OUTUBRO

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ROSEMBERG SANDOVAL

Abertura

Terça-feira 19 de agosto de 2014 19h

Período expositivo

20 de agosto a 04 de outubro de 2014

Horário de visitação

terça à sexta das 11 às 19h.

sábados das 11 às 17h.

A Galeria Pilar tem o prazer de trazer ao Brasil a primeira exposição individual do transgressor artista colombiano Rosemberg Sandoval. A mostra reúne obras que destacam a brutalidade, a violência e a dor de membros invisíveis da sociedade cruel como a colombiana, tratadas com muita poética e sutileza.
A mostra é uma panorâmica sobre sua produção e reúne trabalhos em performances, fotografias, vídeos, frottages e objetos criados entre 1981 e 2014.
Um dos principais artistas contemporâneos da Colômbia, Rosemberg Sandoval utiliza a performance como meio máximo de expressão para discutir a pobreza, a extrema violência de seu país, a loucura e a morte. Sua produção é conhecida pelo emprego da estética povera e utiliza ações altamente teatrais-anárquicas. Dentre os trabalhos exibidos na Galeria Pilar, foram selecionadas obras que destacam a brutalidade utilitarista da sociedade e o descaso de seus párias, que se recusam a assumir responsabilidades. Sua escolha de materiais demonstra o interesse em forças primitivas, como rituais pré-colombinos, violência e discursos de identidades enraizadas como em trabalhos de consagrados artistas como Debora Arango, Lucio Fontana, Gordon Matta-Clark e sua imersão no submundo, e também referências à marginal-heróica de Helio Oiticica e Lygia Clark.
O artista, que foi guerrilheiro em sua adolescência, desenhou com entranhas e sangue humanos e pintou usando a língua de um líder sindical morto. Por mais de trinta anos, Sandoval trabalhou com materiais corporais, tais como vísceras, sangue e cabelos de cadáveres, resíduos de atentados terroristas e sujeira, trazendo à tona a dor de membros invisíveis da sociedade.

Bio
Nascido em 1959, em Cartago-Valle na Colômbia. Estudou na Escola de Belas Artes de Cali e Universidade de Valle onde atualmente trabalha como professor no Departamento de Artes Visuais da Faculdade de Artes Integradas desde 1995.
Expõe desde 1981 em grandes museus do México, Argentina, Brasil, Venezuela, Equador, Espanha, Suíça, Itália, República Checa e Colômbia e Brasil.
Seu trabalho está em coleções particulares como Daros de Zurique, Prometeo da Itália, coleções privadas e museus de arte moderna de seu país, tais como El MAMBO de Bogotá, La Tertulia em Cali, MAM de Cartagena e Barranquilla.

Sem palavras
Carlos Jiménez (+)
Ignoro se é falsa ou não a entrevista que fez a TV Globo em dezembro de 2012 com Marcos Camacho, líder do Primeiro Comando da Capital, famosa organização de criminosos paulistas (1). Mas não me importa se são suas ou não essas palavras, porque me parece muito mais importante o fato de que elas expressam, de uma forma absolutamente intolerável, o que provavelmente pensam e sentem aqueles que fazem parte das multidões de marginalizados que assediam as metrópoles latino-americanas. Como afirma Camacho nessa entrevista, na sociedade formada por quem não sabe ou não sofre a humilhante experiência da marginalização e da exclusão social costumamos nos referir a ela nos termos da sociologia padrão popularizados pela mídia: êxodo rural, desintegração, moradia precária, desemprego crônico, fracasso escolar, déficit de serviços públicos etc. etc. Termos que, por serem assépticos, são tão ou mais tranquilizantes do que os que articulam as atitudes piedosas e as doações de caridade com as quais tentamos curar o desassossego que nos causa o espetáculo sangrento da miséria urbana. Ou a cega ameaça que traz implícita. Por isso nos parece tão chocante que se refira a ela com palavras como as usadas por Camacho – ou por quem fala em seu nome –, que não hesita em descrevê-la como um problema radicalmente insolúvel: “Solução? Não há solução. A própria ideia de ‘solução’ já é um erro. Já viu o tamanho das 560 favelas do Rio? Já passou de helicóptero sobre a periferia de São Paulo? Solução como? Ela só existiria com muitos milhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral, e tudo teria de ser sob a batuta quase de uma ‘tirania esclarecida’ que saltasse sobre a paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice. E do Judiciário. (...) Tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria uma mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.” 

Mas achamos ainda mais chocante que quem fale assim seja um delinquente confesso, o líder de uma irmandade todo-poderosa de criminosos, que, sem o menor traço de arrependimento, nos espeta na cara: “Estamos no centro do insolúvel mesmo. Você no bem e no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma nova ‘espécie’, já somos outros bichos, diferentes de você. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, por um ataque cardíaco. A morte para nós é a refeição diária, despejados numa vala comum. Só proletários, ou infelizes, ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo ali fora, cultivada na lama, se educando no mais absoluto analfabetismo, diplomando-se nas prisões, como um monstro alien nos cantos da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. É isso. É outra língua.
Talvez as palavras de Camacho, ou de seu dublê, irritem por sua arrogância, mas acho que é assim sobretudo porque elas desafiam o que nossa consciência e nossos discursos ocultam mais prWofundamente: o silenciamento dos excluídos. Não dos outros, esclareço: dos excluídos, daqueles a quem privamos a palavra. Não é que eles careçam dela: é que nos recusamos a concedê-la a eles, ou, no melhor dos casos, a escutá-la. Preferimos sempre as palavras decorosas, humildes, pudicas ou razoáveis de quem diz falar por eles. Ou as de quem se atribui o direito de interpretar seu silêncio forçado. É aqui, na violência desse silêncio vergonhoso, onde se situa o trabalho de Rosemberg Sandoval, que sempre tentou dizer com suas obras aquilo que os excluídos são impedidos de dizer com suas próprias palavras. As palavras radicalmente moldadas pela experiência da exclusão. A performance Sintoma, realizada em 1984, é eloquente dessa perspectiva. Ele a descreve assim: “Vestido com uma roupa de plástico e gaze escrevo textos uns sobre os outros, com uma língua untada de sangue humano vencido (doado pela Cruz Vermelha equatoriana) nas paredes do museu.”
A utilização da língua de um cadáver para criar textos que são ilegíveis é a imagem de um autêntico colapso da relação sempre conflituosa entre a fala e a escrita. Aqui não se trata apenas de que a fala nunca é congruente com sua transcrição, e sim de que é impossível transcrever a fala porque, neste caso, a palavra e sua transcrição se encontram em âmbitos que são adversários ou excludentes. A escrita pertence à cidade – que na Colômbia ainda é a “cidade letrada” conceituada por Aníbal Quijano –, ao passo que a fala é dos tugurios, o nome dado às favelas em Cali – a cidade onde nasceu, mora e trabalha Rosemberg Sandoval. Os tugurios não costumam sair nos jornais, porque, como Marcos Camacho se queixou: “Nós só éramos notícia nos desabamentos de casas nas montanhas ou na música romântica sobre ‘a beleza dessas montanhas ao amanhecer’, coisas assim...” E, inversamente, nos tugurios os jornais não circulam, e se circulam têm pouca credibilidade. Ou pelo menos assim pensa Sandoval, que em 12 de março de 1982 realizou numa galeria de arte de Bogotá uma instalação, cujo breve título era a própria data de sua realização, em que cobriu o chão, o teto e as paredes com jornais do dia. No chão havia dispersas pilhas deles manchados de sangue. Rosemberg Sandoval a qualificou de “calorosa placenta da desinformação”. Ele recupera essa última imagem em Chinchorro [rede de dormir usada na Colômbia e na Venezuela], instalação de 2013 em que a protagonista era uma rede tecida com garrafas plásticas sujas e outros resíduos, que convertem um objeto tradicional dedicado ao descanso e à vida social em “uma placenta suja que levita no vazio com pouca luz”.
Dentre todas as suas tentativas de decompor a linguagem da exclusão, a que mais me comove foi a que realizou em 1999 no Museu de La Tertulia. Intitulou-a Mugre [Sujeira], e nela levou no ombro um indigente recolhido na rua até uma das salas do museu, “onde, usando-o como um trapo sujo”, foi “desenhando com ele uma linha de dor e sujeira na parede branca do museu”. A seguir depositou o indigente numa plataforma de madeira pintada de branco colocada no chão, sobre a qual escreveu com “ele, de um jeito doentio, desta vez agarrando-o pelos pés e riscando com as costas do miserável” a plataforma imaculada.
Esta ação também expõe a ética do trabalho de Sandoval, que não fala dos excluídos, e sim com os excluídos, cuja sorte compartilha “até se sujar”, como diria Gabriel Celaya, e a ponto de causar ao próprio corpo as mesmas dores que padecem os corpos ultrajados de quem sobrevive na periferia de nossas cidades. Como fez na performance Rose. Rose, de 2001, em que, vestido de branco, espremeu um buquê de rosas vermelhas, cujos espinhos sangraram suas mãos. Ele compartilha igualmente a raiva dos excluídos empunhando com fúria um punhal, como, por exemplo, em Amazonas, na qual nesse mesmo ano ele desenhou um mapa da América do Sul esfaqueando impiedosamente o papel.
Esclareço, para terminar, que Rosemberg Sandoval na realidade não fala, mas, para se comunicar e se expressar, ao invés de palavras usa objetos eloquente como o chinchorro ou as botas pantaneiras atravessadas com ossos humanos de Emberá-Ghami, de 2008. Ou actos, sobretudo atos. Porque para ele a performance, “com seu caráter de salvação e orfandade, é a única coisa que nos permite conviver com a pobreza, com a loucura e a morte”. Que assim seja.
(+) Carlos Jimenez,  Escritor e crítico de arte. Professor universitário. Reside e trabalha em Madri, Espanha. http://elartedehusmeardecarlosjimenez.blogspot.com/