IARA FREIBERG

15 MARÇO 21 ABRIL

PRESS RELEASE

IARA FREIBERG

Abertura

Quarta-feira 14 de março de 2012 19h

Período expositivo

15 de março a 21 de abril de 2012

Horário de visitação

Clarividências
 
Do alto do seu apartamento na região central de São Paulo, Iara Freiberg tem descortinada uma paisagem algo infernal e, ao mesmo tempo, vibrante. O palimpsesto de concreto, aço e poluição, cortado por artérias de circulação em congestionamento permanente, parece reverberar na intrigante produção visual da artista paulistana. “Mas não sei dizer o porquê do interesse pela arquitetura”, afirma ela.
 
“[...] o arranha-céu é o instrumento de uma nova forma de urbanismo incognoscível. Apesar de sua solidez física, ele é o grande desestabilizador metropolitano: promete uma instabilidade programática perpétua”1, escreve o arquiteto holandês Rem Koolhaas em seu manifesto tardio Nova York Delirante.
 
Assim como Koolhaas lança mão de conceitos como “congestão”, “manhattanismo” e “retícula”, traçando elos entre a urbe e a história cultural, é difícil não enxergar as zonas intersticiais entre a metrópole paulistana e a poética plástica de Freiberg.
 
Agora, para a exposição na Galeria Pilar, a intervenção da série Incisões resume os experimentos anteriores propostos pela artista. Ou melhor, parece desenvolvê-los para um caminho sem volta. A partir da entrada principal, Freiberg impõe ao espaço expositivo, que teria de se pautar pela neutralidade e harmonia, um rasgo (regular, é preciso frisar) em amarelo, que perpassa vários ambientes da galeria, incluindo o mobiliário, as paredes, as portas. Tem algo que a crítica Juliana Monachesi sublinhou como “metarquiteturas”, compostas de “continuidades impossíveis, falsas perspectivas, deformações espaciais etc.”2, mas, sob certo aspecto, parece provocar novas discussões, mais robustas. Traz algo mais a ver com sobreposições, seccionamentos, invasões, procedimentos que já esboçara em intervenções como a feita para o SESC Bom Retiro, em 2011, e em projeto de arte pública em passarela sobre a Avenida Tiradentes, no bairro da Luz, neste ano.

“Na discrepância deliberada entre continente e conteúdo, os criadores de Nova York descobrem uma área de liberdade sem precedentes. Eles a exploram e a formalizam com o equivalente arquitetônico de uma lobotomia − o corte cirúrgico da ligação entre os lobos frontais e o resto do cérebro, para aliviar alguns distúrbios mentais separando as emoções e os processos do pensamento. O equivalente arquitetônico separa a arquitetura exterior e a arquitetura interior. Dessa maneira, o ‘monolito’ poupa ao mundo externo as agonias das mudanças contínuas que grassam dentro dele. Ele oculta a vida cotidiana”3, define Koolhaas.
 
Tal distância do cotidiano destacada pelo arquiteto holandês, que constitui a recusa a uma relação completamente integrada com o entorno, mais um elogio à obstrução, ao ruído, ao atravessamento, uma negação à placidez, todos são elementos tratados com habilidade por Freiberg. Uma contaminação cheia de volumes retos, matérias em branco, linhas densamente desenhadas.
 
E a intervenção também é uma investigação sobre o desenho, como a produção da artista sempre debateu. Os desenhos propriamente ditos expostos na Pilar alimentam-se das faixas do projeto Incisões. Relacionam-se com a série de fotografias que Freiberg realizara em começo de carreira, a retratar planos, painéis e áreas da Fundação Bienal, mas, hoje, configuram-se como uma experiência sedimentada sobre o estudo do espaço. E, mais que um encontro de linhas, planos, pontos de fuga e perspectivas, parecem lançar ao espectador visualidades que cruzam a matéria e o vazio, a corporeidade e o pensamento, o gesto e a rejeição. Suas pinturas também deixam de personificar quaisquer questões pictóricas. “Não têm nada a ver com discussões de cor”, diz a artista. Deixam de lado qualquer aspecto de janela para o mundo e comentam sua existência instável e impermanente, dado essencial do “gene” constitutivo do melhor da arte contemporânea.
 
Mario Gioia