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A OUTRA CENA

THIAGO HAIDAR
29 Set — 31 Out 2025
Curadoria e texto Bianca Dias

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Estraçalhar a forma para encontrar a pintura

“A outra cena” foi a formulação usada por Sigmund Freud para nomear o registro do inconsciente: o outro palco, a outra aparição que está dentro de uma imagem. Com o psicanalista francês Jacques Lacan, essa “outra cena” adquire dimensão central, pois corresponde a um lugar onde o sujeito está às voltas com sua própria condição de ser falante, com os deslocamentos que erigem daí e podem sustentar uma invenção singular. Este é o ponto em que se deu meu encontro com o trabalho de Thiago Haidar. Em seu ateliê encontrei as máscaras, aqui apresentadas como parte de um universo que também se relaciona com a pintura mas, sobretudo, com essa passagem de um ponto a outro, do abstrato ao figurativo. Como se as presenças do barro, moldadas no intervalo entre uma coisa e outra, fossem uma espécie de convocação a uma aparição mais febril e demoníaca na pintura.

De telas brumosas e misteriosas, velando enigmas, passamos ao gesto ruidoso e destrutor da superfície, do plano, da linha, uma dança sensível regida pela dimensão musical que o artista abriga no cotidiano. Se as pinturas abstratas rompem com a obrigação de copiar a realidade visível, as obras mais próximas do figurativo tampouco querem transpor as coisas em sua literalidade, e flertam com o onírico e o delírio. Tratando o quadro como uma partitura visual dotada de ritmo e compasso próprios, o artista escuta a transformação do trabalho e, quando necessário, vai e volta.

À luz da psicanálise, essa “outra cena” também inclui a ideia de pensar para além do cânone no arco da história da arte. Podemos aqui adensar certa tradição delirante do sonho, do transe e de práticas diversas que se forjam como contraponto à escassez imaginativa. Nas pinturas percebemos a atração do artista pela estranheza que faz revirar a domesticidade das imagens e saltar à outra margem, extraindo daí um saber possível, elaborando o que excede, invocando abertura. Sua pintura pode viver nas fronteiras do absurdo, em um mundo prenhe de fascinante desordem, ou habitar um enigma brumoso mais abstrato, que vela ou revela o indizível. No atravessamento e deslocamento de fronteiras e limites, no vai e vem pictórico em porosidade perpétua, encontramos um artista de fina sensibilidade, borrando linhas e sensações prontas.
Suas cabeças parecem zombar da ordem, abrindo frestas a uma constelação de forças desestabilizadoras, invertendo lógicas de funcionamento, recuperando a dimensão da incerteza e da imaginação. De um universo evocado por seu gesto pictórico – onírico, encantado e selvagem – surgem também camadas de tempo que incluem erros, arrependimentos e certa turvação. Um mundo pode irromper, sob formas fantasmagóricas e ambíguas, operando do espanto e da desnaturalização das coisas, escapando de classificações autoritárias. O que parece interessar ao artista são os efeitos éticos e estéticos dessa ressonância do som, ruídos e silêncios do aqui e agora que, muitas vezes, permanecem inauditos ou na penumbra. Essa dimensão brumosa atravessa todo o trabalho, como uma ética que nos lança ao confronto, ou acentua a potência que há em assumirmos as rachaduras do mundo e nossa fundante fragilidade. Se, nas pinturas abstratas há uma linguagem muito corporal e musical e uma espécie de jogo com a indefinição, nas pinturas mais figurativas – que começam pelo desenho – há uma relação mais direta com a imagem, seja por uma fotografia como referência, seja por imagens do mundo que podem se transmutar e se transfigurar em outras.

Em “A Interpretação dos Sonhos”, Freud escreve que “nossos sonhos nada mais são do que fantasias” e, no artigo “O poeta e o fantasiar”, frisa que os sonhos sofrem a ação da censura e emergem deformadas e distorcidas. A série de demônios surge do enfrentamento do artista desse aspecto onírico e delirante. Seu gesto opera a partir da escuta do que essas esculturas estão dizendo. Da escuta e do intervalo surgem novas pinturas.

Para abordar a questão do sujeito e o lugar do demônio como voz do desejo, Lacan recorreu a um pequeno e antigo conto – “O diabo amoroso”, escrito em 1772 por Jacques Cazotte – tomando por referência uma pergunta feita pelo diabo. O conto surgiu como um ato de coragem e como uma corrente subterrânea que evoca as águas do fantástico, onde o diabo, como lugar do desejo que interroga e acossa, assume a dimensão do inconsciente, dos equívocos e, principalmente, das múltiplas possibilidades de significações e frestas, lugares onde rupturas de sentidos podem acontecer. No gesto artístico que vira tudo do avesso, que vai e volta entre a bruma da abstração e a presença febril de criaturas demoníacas, Thiago experimenta o que é estranho. Toca os caminhos para pensar o impensável, abriga o inquietante de onde múltiplas significações podem emergir, fazendo com que certezas e verdades decaiam em um exercício interminável.
Se nos trabalhos abstratos o vazio é algo muito importante para a composição, no exercício mais figurativo excesso e vazio dialogam em tremor constante. É Thiago Haidar quem nos guia por essa trilha movediça: “As vezes tenho a necessidade de espaço, de tirar algo para colocar outra coisa. Então pode chegar esta inundação do branco numa pintura, pois ele permite, depois de seco, quase que um novo começo”. Gesto, corpo, ritmo, pausa, peso e gravidade são questões fundamentais que atravessam seu trabalho. Na pintura, o artista está sempre lidando com tensão e desintegração. Seu fluxo compositivo se dá a partir de sobreposição, de camadas de tintas ou de pensamento, estabelecendo uma relação crítica entre figura e fundo, ou entre a presença das coisas no mundo.

Estraçalhar o conhecido e encontrar outras formas na fragmentação e na dissolução. Em sua prática o artista pinta influenciado pelo encontro com imagens cotidianas, assim como pelo estudo aprofundado do campo pictórico que pode conduzir ao fantástico e ao onírico, mas também ao exercício de decantação. Suas formas são imperfeitas e dinâmicas e, talvez por isso, vivas e pulsantes. Trazendo sempre algum ruído na visualidade. Suas pinturas comparecem como registro de um movimento que deforma a composição e explicita algo do borrão e da mancha, criando uma nova ordem que questiona o próprio estatuto de imagem em nome de uma existência menos estanque e fixa. Os títulos de suas pinturas também se dão nesta via: “Tento não entregar o nome de bandeja, para que o observador possa criar seu próprio sentido”.

A pintura é a língua utilizada por Thiago Haidar para nos despojar das formas prontas. Seu trabalho nos ensina sobre o gesto pictórico como algo radical e único, nos mobiliza ao deslocamento e conduz às metamorfoses diversas como aquelas que se avizinham da poesia e nos fazem “franquear a violência luminosa suspensa”. Ou à lembrança aguda da ambiguidade que nos constitui, como o escrito fulgurante de Herberto Helder: “e as luzes e as trevas em volta da mesa / a força sustida das coisas / e a redonda e livre harmonia do mundo”.

Bianca Coutinho Dias

VISTAS DA EXPOSIÇÃO

OBRAS

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