
CADA UMA DESSAS PINTURAS
Cada uma dessas pinturas
RICARDO PAPP
Mar 14 — Abr 14, 2026
Texto: Paulo Gallina
"Comecei a desenhar na infância e não parei mais. Virou minha paixão. Minha família me incentivou muito apesar de todas as nossas dificuldades financeiras. Meu primeiro curso de desenho foi no Instituto Universal Brasileiro graças ao gibis da turma da Mônica e graças a muito esforço e sacrifício de todos, ingressei e conclui minha formação em artes na FAAP - Fundação Armando Álvares Penteado em 1987. Fiz outros cursos durante esse tempo todo e fui conciliando a pintura com o trabalho em publicidade. Destaco aqui uma passagem curta pelo professor Maurício Takigushi em 2017. Aprendi muito. Disciplina. Ultimamente faço parte do grupo "Prática e Reflexão" do artista e mestre Paulo Pasta no Instituto Tomie Ohtake. Alegrias e descobertas constantes. Só agradecimentos à ele e à turma.
Participei de algumas exposições ao longo dos anos de pintura e destaco aqui a Direct Message, na Galeria Sankovsky em São Paulo, 2017. Na Plana Festival na Cinemateca de São Paulo em 2018, no Espaço do Olhar, no Instituo Tomie Ohtake em 2018 e 2019 e um salão no MAB - Museu de arte de Blumenau - 2020."
Para falar de pintura, existem caminhos que a tradição ensina. Gosto de começar pelo gênero das imagens diante de mim. Muitas escolhas técnicas se manifestam no gênero escolhido para criar — se é que há uma escolha real a ser feita. Nesse sentido, a pintura de Ricardo Papp parece não querer se conformar às categorias forjadas na academia. O artista insinua estar mais interessado naquilo que é formulado nos ateliês e nas interlocuções com críticos e outros pintores.
Num primeiro olhar, essa série de pinturas sem título (2025) — feitas com óleo e cera de abelha sobre telas com algo como vinte por trinta centímetros — pode parecer abstrata.
A pincelada curta, num gesto quase caligráfico, feita — ao que parece — da esquerda para a direita [como também acontece na escrita], colabora com essa impressão de forma tão potente que se basta. Em outro momento, Ricardo me comentou que suas imagens não são construídas da esquerda para a direita, de cima para baixo. E por que seriam? As palavras pertencem a outra qualidade de imagem; aqui, a pintura explora algo singular. Escrevendo com a tinta e negando-se a entregar uma imagem prontamente reconhecível — uma réplica do mundo como o vemos.
Discordo que sejam pinturas abstratas.
Conversando com o artista durante a pesquisa para esta exposição, afirmei: “São paisagens”. Ricardo, interessado na fatura e no caráter de pintura, respondeu com sua calma costumeira: “São?”. Era uma dúvida sincera. Sem preocupar-se com essa catalogação tão importante para os teóricos, os críticos, para mim. Eu, que gosto de me justificar, continuei: “Você não nega a imagem. Você nega o humano. É uma pintura que nega o antropocentrismo, a figura humana e, nesse desprendimento, nos entrega uma paisagem”. Eu me referia aos ritmos, ao gesto [curto] aplicado em linha, criando uma horizontalidade que me faz pensar num horizonte: nas camadas do espaço na pintura separando o olho do firmamento.
Parei de falar. Fiquei pensativo. Ricardo olhava para as pinturas no ateliê e meneava a cabeça. Por fim, disse-me: “Minha pintura — essas pinturas — não é sobre o tema do que representa. Ela é sobre a própria pintura”. Uma frase comum, dita com sinceridade. Restava saber o que isso significava para ele.
Meu olho vagou pela sala e parou no segundo quadro, a partir da janela, que estava atrás de mim. Nela percebi como o pintor escava a tinta sobre o fundo. Um gesto curto. Metódico. Pacientemente espalhando e parcialmente escavando a camada superficial. Marcando as cerdas na massa da tinta. Revelando um fundo que é fantasma por si.
O pintor parece também negar um início claro, uma origem entendida de pronto. A base revelada pela pincelada é a somatória de cores. Sua preparação começa no fundo do recipiente de solvente com que limpa os pincéis. A borra naturalmente depositada ali é separada e esticada até tornar-se o suporte da pintura. Sobre esse sedimento nasce a imagem que encontramos na galeria Pilar durante este mês e no próximo.
O resíduo prepara o terreno antes da composição. A pincelada escava camadas recentes e revela o encontro entre presente e passado. O pintor deixa marcas, apenas as essenciais. Mostrando a força da presença— algo que parece-me digno de nota.
Ver essas pinturas em pequenas dimensões me contou como o gesto de pintar pode ser arqueológico: resgata o fundo e transforma a somatória de pinceladas em campo para projeção. O que se vê é o que se consegue ver; não há ilusão construída. Resta a imagem e o olhar debruçado sobre a pintura. As interpretações são filhas desse olho que se debruça e se derrama.
As pinturas sem título (2025), feitas em óleo e cera de abelha sobre telas de pequenas dimensões, costuram retalhos da experiência humana. Para o pintor, trata-se do gesto e do ato criativo. Para o observador, a experiência é a de encontrar um espelho cego — projeção de tudo o que se consegue ver.
Ricardo Papp reconfigura a paisagem para espelhar um estatuto mental. Sua pintura não é um jogo lógico; é, como diria Ludwig Wittgenstein em sua fase tardia, um jogo linguístico — e, portanto, também mental.
Onde está o humano nessas imagens? Uma pergunta válida. A resposta, por sua vez, está na própria pergunta. Não no gesto ou na composição. Na inquisição, feita pelo olhar, na suposição de intenção e na busca frustrada de sentido. É aí que o humano se manifesta, projetando sobre a pintura uma colcha infinita de memórias às quais ninguém jamais terá acesso. Suas paisagens são [paisagens] mentais — existem apenas enquanto alguém observa.
Cada uma dessas pinturas — imagens que recusam o corpo e a silhueta — torna-se assim porque cada observador carrega um horizonte [interior] e projeta sua interpretação sobre as telas [sem tema] de Ricardo Papp. A ausência de título nos permite avançar sobre um território vivo e movediço, mas não abstrato.
Paulo Gallina,
março de 2026
VISTAS DA EXPOSIÇÃO
