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LÁBIL

MATÍAS MALIZIA
Mai 18 — Jun 27, 2026
Texto: Edith Derdyk

"Trabalho com materiais de apoio mútuo que, quando combinados, me permitem captar a persistência do frágil, do imperfeito e do que está em transição. Minha intenção é traduzir a atração temporal entre as diversas intervenções sucessivamente praticadas pelos habitantes da cidade e refletir como a sobreposição e convivência de suas ações modificam a paisagem urbana."

Matías Malizia vive e trabalha em São Paulo. Artista visual, ilustrador e designer gráfico formado pela Universidad de Buenos Aires (UBA, FADU). Atuou como professor de Ilustração no curso de Design gráfico da Universidad de Buenos Aires (UBA, FADU) e de Morfologia no curso de Design industrial da Universidad Nacional Guillermo Brown (UNaB). Participou da residência artística FAAP (São Paulo, Brasil, 2022) e do programa de artistas da Universidad Torcuato Di Tella (Buenos Aires, Argentina, 2018). Tem participado de exposições desde 2015, com destaque às individuais: Marmita (São Paulo, Brasil, 2024), Segunda Naturaleza (Gijón, España, 2018), Desde_Hacia_Hasta (Buenos Aires, Argentina, 2017) e No Fui Pero Me Contaron (Buenos Aires, Argentina, 2016); bem como coletivas: Fragmentar La Obsolescencia. Bienal Sur (Manizales, Colombia, 2025), 28° Premio Klemm (Buenos Aires, Argentina, 2025), Ejercicio Plástico (Buenos Aires, Argentina, 2025), Ambitude (São Paulo, Brasil, 2025), Sempre Deixam a Porta Aberta (São Paulo, Brasil, 2024), Tudo Deve de Mudar (São Paulo, Brasil, 2024), Para Tocar no Real (São Paulo, Brasil, 2024), 19° Salão Ubatuba de Artes Visuais (São Paulo, Brasil, 2023), Tecnopoéticas Ambientales (Rosario, Argentina, 2023 e Buenos Aires, Argentina, 2022), 7° Premio Fundación Andreani (Buenos Aires, Argentina, 2020), Premio MACsur a las Artes Visuales (Buenos Aires, Argentina, 2019 e 2018), 73° Salón Nacional de Rosario (Rosario, Argentina, 2019), 96° Salón Nacional de Mayo (Santa fé, Argentina, 2019), Concurso de Artes visuales. Fondo Nacional de las Artes Visuales (Buenos Aires, Argentina, 2019), 107° Salón Nacional de Artes Visuales (Buenos Aires, Argentina, 2018), Cover (Buenos Aires, Argentina, 2018), Carácter Fortuito (Buenos Aires, Argentina, 2018), Asunción (Buenos Aires, Argentina, 2016) e Premio Fundación Williams (Buenos Aires, Argentina, 2015) entre outras.

Linha que (ar)risca uma inflexão do tempo,

um desenho em que o ar é superfície, 

um desenho em que se pega a linha com as próprias mãos, 

um desenho que é um convite ao inacabado e à lentidão, diante das urgências dos fluxos que nos atravessam em ambiente urbano, 

um desenho mental que se dobra à escuta das materialidades e corporeidades com que as linhas são feitas: o ferro, o ímã, a terracota, a argila, a massa corrida, 

um desenho que suscita a existência de espaços vivos,  

desenho que convoca um lugar em estado de aparição dada às presenças objectuais realizadas pelos impulsos, organicamente construtivos, pela hábil manualidade de Matías Malizia que, com procedimentos mínimos e concisos, constrói espacialidades intensivas e extensivas,  

qual seria o eixo vertebral que atravessa a diversidade dos conjuntos de trabalhos apresentados - a ação que sustenta este fazer imperioso no tempo? talvez uma necessidade construtora de conectar partes visando um todo, ligando fragmentos da mesma ordem através de contínuas repetições, 

tais como: conectar ferro com ferro através de ímãs evocando uma ‘atração temporária’; juntar filamentos de terracota com terracota apertando os cruzamentos para que a matéria, ainda mole, grude uma na outra antes de fixar e endurecer; construir corpos ocos e volumosos com filamentos de argila colando um no outro – nestes conjuntos predomina uma natural aderência entre materiais da mesma espécie através da conjugação dos elementos entre si que, apesar da similitude, povoam diferenças, 

e ainda outra série, um pouco distinta em termos de procedimento, que se entranha na mostra: uma pequena matriz que Matias carrega de sua vivência escolar em Buenos Aires – uma tabuleta de plástico delineando os primeiros sinais para a alfabetização – letras, mapa da cidade e formas geométricas. Matias preenche estas formas vazias com massa corrida como se a matriz fosse um molde escultórico, extraindo dos sulcos as formas brancas que viram figuras no mundo, um léxico nascido de uma cartilha escolar e que, saindo da fôrma, adquire a aparência de ossos, minerais, conchas oriundas de um tempo perdido no tempo,
 
com gestos mínimos e repetidos, Matias formula um inventário de linhas que habitam espaços – linhas ora mais instalativas e fugazes que se vinculam diretamente no espaço; ora grides que se repetem e se sobrepõem desenhando tramas e padrões nas paredes mas, por vezes, interrompidas por vazios cujos vetores prosseguem para um nada; ora construindo volumes escultóricos que não são modelados, mas surgem por adição de filamentos; ora se reportando a uma escritura quase que arqueológica, 

uma certa noção de sistema persiste como algo que navega por debaixo de seu fazer tão permanentemente delicado, denotando a impermanência das estruturas aparentemente controláveis – reside aí, quem sabe, o ímpeto da desfuncionalização dos códigos oferecidos, sem escapar à grade de um sistema que reordena, de forma invisível, um mundo mais suscetível e instável,  

a forma resultante não persegue um ideário estético prévio mas revela os frames dessas ações, teimosas e insistentes, que persistem e sustentam a perseguição de algum lugar permeável,  

na mostra a noção de desenho amplifica seu campo de atuação e congrega sentidos  imbricados na própria semântica da palavra desenho, orbitando entre o estado  mental e o sensível, entre o fato construtivo e o orgânico, entre um projeto que  designa um conceito e os embates tropeçantes com as matérias,
atualizando um pouco  o coeficiente de arte enunciado pelo artista francês Marcel Duchamp, e aqui dito com  minha próprias palavras – trata-se do espaço residual que existe, resiste e não desiste  entre a intenção e a realização, entre o que se projeta e não acontece,  e o que não se  projeta e acontece.  

Matias Malizia nomeia a mostra de LÁBIL sugerindo a presença da qualidade do que é instável, frágil, transitório como parte de sua gramática e enfatizando o tônus daquilo que é constantemente inconstante, com seus padrões variáveis e mutáveis,  

são trabalhos que traçam um arco cujas pontas geram trações paradoxais entre o quase invisível - tais como as linhas de ferro ligados por um ímã que, a qualquer movimento inesperado as estruturas articuláveis estão sujeitas ao desmoronamento - e a presença matérica – tais como as formas carnudas dos ocos bojudos; ou entre as grides modulares meio tortas, feitas de terracota e os tabuleiros amparando as  escrituras feitas de massa corrida, 

em sua diversidade de operações e resoluções materiais, ainda assim toda a produção é permeada pela simplicidade complexa do gesto de ligar, de forma frágil, um fragmento ao outro da mesma natureza, gerando convivência das diferenças mas com certa hospitalidade, imantando campos de sentido que friccionam as percepções pelas precisas instabilidades, 

entre ossaturas e formas informes a produção de Matias Malizia parece ecoar, ao longe, as linhas e operações de Fred Sanback, Sol Lewitt, Eva Hesse, Fernanda Gomes, Nolan Oswald Dennis, Bruno Munari ou Waltercio Caldas, emanando uma conversa silenciosa e substantiva ao redor da linha que observa e absorve do mundo um outro mundo, capaz de (ar)riscar uma inflexão do tempo, um elogio ao desenho,

Edith Derdyk,
abril 2026

VISTAS DA EXPOSIÇÃO

OBRAS

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